|
ENTREVISTA COM MÁRIO PACHECO CONDUZIDA
POR FELLIPE CDC
01) Mário Pacheco, confesso, de todo
coração, que sempre sonhei em fazer uma entrevista
contigo, mas nunca fiz porque meus fanzines, todos eles,
são impressos em fotocópia (maioria esmagadora) ou são
feitas em gráfica, logo, você tem assunto para caralho,
ia falar pelos cotovelos e eu ia me foder para pagar
sozinho um fanzine de quase mil folhas. Então,
valendo-me desse novo formato, o tal do e-zine, vamos à
sabatina. Para começar, quando você virou roqueiro nem
toca disco tinha no Brasil, portanto, como fazia para
ouvir seus bolachões? Eu menino tinha
bolachões e não tinha som! Destruí o som da família
ligando 110V em 220V. Naqueles idos o aparelho de som
não era descartável e custava uma fábula. Passei muito
tempo guardando meus discos no guarda-roupas, admirando
as capas...
02) Qual foi o seu primeiro
vinil? Dos seus LPs atuais, qual o mais antigo? E o mais
raro? Um compacto duplo com A HARD
DAY’S NIGHT , de 1975. Tenho até hoje! Os mais raros: 3
bootlegs duplos dos Beatles, um picture disc do John
Lennon, mais bootlegs de Pink Floyd, Stones e Hendrix. E
a maioria absoluta da coleção é de bolachas importadas.
Era muito mais fácil que hoje!
03) Muitos abandonaram o Rock,
você, pelo contrário, continua firme e forte. Na sua
opinião, quais os motivos que levam uma pessoa a
abandonar um estilo de música tão saudável quanto o
Rock? Rock é PNC todo dia! O rock é
igual à um bagulho que você engole e ele curte com a sua
cara. Você pensa que tá legal e de repente vai latrina
abaixo. Rock pra mim são altos e baixos. Um dia vil,
outro vivo.
04) Várias perguntas em uma.
Vamos lá! Por que começou a editar fanzine? Quando
editou o seu primeiro impresso marginal e qual o nome
dele? Ainda tem uma cópia do
mesmo? Tenho originais de tudo que
realizei! Toneladas de arquivos! Guardei tudo o que eu
toquei e guardei absolutamente tudo que vi li e ganhei.
O primeiro zine (THE BEATLES OLDIES BUT GOLDIES) saiu em
1982. Já no número 3, como JORNAL DO ROCK, chamou a
atenção do programa de TV SOM POP, dos jornais locais e
do Renato Manfredini.
05)
Quantos fanzines editou em sua vida antes de chegar aos
seus livros? Quanto tempo, em média, durou cada fanzine
seu?Fiz zines entre 1982-87, foram 19 edições. A
onda era trimestral. Quando tudo amargava eu soltava uma
edição em meio ao show do Barão Vermelho ou dava uma
festa. Dei muita festa por aí, pegava a Kombi do senhor
Ivan (meu pai e maior incentivador, que me comprou
muito disco). Ia na casa do Júnior e levava o som pra
rolar na casa do Edvar. Lancei discos do Motorhead, ‘A
Nice Pair’ do Pink Floyd, Júpiter Maçã, Mopho... Todas
estas bandas os caras ouviram lá em casa. Daniel Matos
(produtor) me passava os discos. Todo mundo quando
comprava um disco que não gostava e queria trocá-lo me
procurava! Eu, Luiz Punk, Ricardo Lima... Barbudos com
carteira fichada correndo atrás de vinis e as mães dos
garotões: “- Vocês não trabalham?” “Tamos de férias,
dona Maria!”
06) Olha, sei que o Rolldão o
ajudou em um zine sobre o Black Sabbath. Foi um grande
trabalho. Sei porque tenho um exemplar guardado, mas não
lembro o nome e não vou perder tempo procurando, pois
sou um arquivista de merda e não vou ficar preso a esse
detalhe. Vou ser rápido como um bom gancho de direita:
como era mesmo o nome do abençoada publicação e como
descolavam as matérias e decidiam quais iam
entrar? Sleeping Village Sabbath Rock
Club! Rolldão, além de patrocinador, era o impressor da
parada, garantindo uma excelente qualidade. Guilherme
‘Iommi’, um grande colecionador de São Paulo, mandava as
matérias que eram traduzidas pelo Antonio Carlos e
editadas ou datilografadas pelo Maurício Melo, nas capas
vinham artistas fenomenais, tipo Rogério ‘Punk’,
William ‘Macha’, Pedro Bala, Diogo... esses
revezavam-se... Caralho! Eu tinha mais amigos... Outro
cara, outro sócio que não pode ser esquecido, é o Révero
Frank. Me ajudou a trazer a Patrulha do Espaço! Révero
trabalhou nos fanzines desde o início. Até hoje ele e o
Rogério ‘Punk’ participam. 26 anos juntos! Mais tempo do
que o meu casamento.
07) O poeta Nicolas Behr era
zineiro e lançou livros, você era(é) zineiro e também
lançou livros. O futuro de todo zineiro persistente é
lançar um livro? Fellipe, eu nunca
fui da geração mimeógrafo e sim da geração coca-cola.
Nicolas Behr (que eu tenho um livrinho) não é parâmetro
de produção alternativa. É mais um dos caras que se
locupletaram com essa onda de ser enquadrado na lei de
segurança nacional, assim como filho de diplomata.
Só é capaz de realizar um livro tendo sido zineiro. O
cara mais absurdamente generoso e surreal é o Kleber da
Da Anta Casa Editora do Antarquismo. O único anarquista
que eu pus os olhos, e olhe que quando você rotula
alguém ele deixa de ser.
08) Mesmo sabendo de todas as
dificuldades, por que decidiu lançar um
livro? Eu fazia o 3º grau e escrevia
no JOSÉ (Jornal da Semana Inteira). Fazer Balada do
Louco foi como uma tese. Ninguém entendia porque eu
preferia andar com o livro debaixo do braço do que num
Fusca.
09) Nada mais natural que o tema
de seu primeiro livro versasse sobre Mutantes / Arnaldo
Batpsta. Afinal, quando começou esse romance, essa
amizade musical entre Pacheco / Arnaldo? Você considera
que a Rita Lee foi para os Mutantes o que a Yoko foi
para a Beatles? Imagine! John Lennon
fazendo todas aquelas músicas pra IOKO! Arnaldo também
passou a fazer músicas para sua musa e eu que estava num
abismo emocional. Conheci sua obra e sentimentos
dilacerantes. E fui bater um papo com ele, a primeira
entrevista em cinco anos! Arnaldo me recebeu e queimamos
fumo juntos, tudo numa pessoa só. Eu também queimei fumo
com Lobão no camarim e queimei fumo e filme com muita
gente! Queimar fumo é arte... Só não gosto de hipócritas
e hipocondríacos.
10) Fale um pouco sobre o livro
“Balada do Louco” (produção, tiragem, críticas,
vendagens, satisfação, etc) Balada do
Louco é eterno, quase mil cópias esgotadas, 17 anos
depois vai virar PDF. Foi reescrito em parceria com
Cláudio César Dias Baptista (o mais velho dos Mutantes)
e virou “ALIENBALADA”. Eu só tenho que agradecer a Deus,
aos gráficos, aos leitores, aos fãs e sempre toda aquela
gente que de alguma maneira sempre me ajudou e
acreditou. A Lucinha (musa atual do Arnaldo), a Fabiana,
empresária; os críticos, os jornalistas de todo o Brasil
que me deram força, desde o Correio Braziliense (Carlos
Marcelo) JB, à Folha de SP, Folha da Tarde. Até hoje
falam do livro.
11) E o segundo livro, como
pintou a idéia? Do que fala a 2ª cria? Pergunto porque
esse eu não tenho... “Aventura Sem
Dublê” é um título gay dado pelo Hebert! Apesar de eu
estar ‘bebaço e loucaço’ querendo traçar Molly Smith! É
cinema, é Beat generation. Na minha obra há dualidades e
situações libertinas. Eu não sou homofóbico e sempre vou
ser grato a esse cara pelo título. Vou contar só pra
você: eu comi a Molly e foi o dia mais feliz da minha
vida. Ela era groupie dessas bandas de filho de
diplomata e eu a desejava desde aqueles idos. Um dia fui
feliz e numa sentada só fiz o livro. Há a Molly que é a
mulher loira da minha vida e a Loretta Lyn que é gay e
pensava que iria casar com o canalha do Pat Zimmerman,
mas ele ficou com a Molly e ela no sanatório. No meu
delírio eu imagino a Loretta Lyn vestida de noiva
cruzando o Eixo (Eixão Rodoviário) em alta velocidade
ouvindo Arnaldo Baptista. No baixo Conic, dia desses, eu
vi Loretta Lyn e pensei ele/ela é ideal para o papel. Se
quer ser “ele”, ser quer ser “ela”, foda-se! Eu não
entro nessa. O meu negócio é “roquenrou”, rebeldia,
sexo, drogas e Conic. Desobediência civil já é uma
retórica manjada mas eu já paguei um alto preço! Eu
rompi com as pessoas e fui rompido! Nêgo acha que eu tô
brincando e eu briguei com muito amigo que pensa que
isto é coisa da minha imaginação. Ninguém me agüentou: a
família, o emprego, os amigos... Sempre fui desajustado.
Quando casei deixei de escrever porque tudo era
verdade.
12) No sentido literário, podemos
esperar algo novo do senhor
Pacheco? Cara! Meu último livro se
chama “LAPSO” saiu em CD-ROM, esteve no site e etc.
Graças à generosidade de Napoleão Valadares eu estou na
página 130 do DICIONÁRIO DE ESCRITORES DE BRASÍLIA! Eu
me sinto imortal! Também devo a outro ato de exarcebada
generosidade do Ronaldo Cagiano, minha participação da
coletânea “Todas Gerações – O Conto Brasiliense
Contemporâneo”. Lá você lê: “A prova sempre estará na
lixeira”, que faz parte de LAPSO! O livro foi lançado na
feira do livro em 2006! Outro cara que eu devo a vida é
o “Fala Zé!” (Zé Vieira), do Correio Braziliense, o
Ivaldo Cavalcante e o Sérgio Maggio, então a gente é
pedra pequena, mas brilha! Outro dia participei do
programa de TV “Cênicos”. Numa rápida ponta eu falo do
Paulo Iolovitch, o pintor de quadras. Quer um melhor
amigo do que esse?
13) E sobre o CD tributo à
Mutantes, produzido por você. O que houve na época
que dificultou o lançamento do mesmo? Soube que o
Arnaldo adorou. Particularmente, considero o melhor
tributo que já ouvi dos Mutantes. Sabia que até hoje a
banda Khallice toca, e com muito sucesso, a música que
gravaram para o tributo? “Madman’s
Lullaby”... O título foi presente do amigo Aniviel
Vicente que morou nos EUA nos anos 60, e o
vocalista editou este título como sendo
dele... Com contrato assinado a gravadora põe o disco na
geladeira, espera que uma banda ‘estoure’ esse é o
procedimento. Só neguinho incipiente não sabe dessa, e o
meu disco saiu! E quanto aos discos dessas bandas que
nunca saíram? Neguinho é canalha, é despeitado. O disco
teve resenha pra caramba! Fez sucesso em San Francisco e
é vendido on line em vários sites e eu nunca recebi um
centavo. O disco saiu pelo trabalho de produção
empresarial do Felipe Caduco (VERNON WALTERS) e também
pela verba do próprio bolso dele e das bandas, éramos
ingênuos, pensávamos que a coisa poderia funcionar
a$$im...
14) E a idéia do “Do Próprio
Bolso”, quando nasceu? Como está o
site? Um dia eu saquei que tudo vinha
do próprio bol$o! Agora o editor sênior do site é o
Celso Barbieri (afamado mestre do rock paulista). Outro
colaborador porreta é o Paulão de Varadero (Rádio
Câmara). O site é considerado, consultado e vistoriado.
É tudo que eu faço, é a minha vida, e não vou ficar
nessa sempre.
15) O Rock brasileiro ainda tem
muito a oferecer? Das novas bandas, quais ousaria
destacar? E dos medalhões tupiniquins, quais recomenda
para que uma pessoa adquira a qualquer
custo?O único cara do rock nacional que
merece respeito é o Rolando Castello Jr., o resto é
merda. Também gosto do Lobão. Eu gosto mais das bandas
radicais “Cadela no Cio” do que qualquer outra
coisa.
16) O que você acha do atual
momento Rock em Brasília? Rock em
Brasília! É o Ronam, a Berlin Discos, VOCÊ! E o Nathal
Batyera, da banda Ummaghumma!
17) Kid Vinil lançou um livro há
pouco tempo. Você já viu? Leu? O que
achou? Tenho lido entrevistas do Kid
Vinil. Não aconselho nada que envolva ‘mainstream’,
mercado e etc. Gostei dele tirar o prêmio daquele
imbecil do EFÊ (f de FHC, de FMI, e por aí você se Fode
com um F bem grande!).
18) Você já foi ao Porão do Rock?
O que acha do festival? Você me disse que o Gil, que
tinha um estúdio, reclama que esse nome era
dele. Gil Gilberto dormiu de touca na
cidade maravilhosa e quando voltou viu que a semente
dele estava plantada em outra lavoura.
19) Eu o considero uma verdadeira
enciclopédia do rock e eu estou muito satisfeito que o
Zine Oficial tenha me dado o espaço para que fizesse uma
entrevista contigo. Estou, sinceramente, comovido e
lisonjeado. Por isso, quando o Tomaz me falou do projeto
da rádio Zine Oficial, uma das primeiras pessoas que me
veio à cabeça para ter um programa on line foi você.
Como vai encarar essa nova empreitada e o que pretende
durante essas horas ao vivo? Já definiu o nome do
programa? Hora do Rock! Se chama HORA
DO ROCK! No primeiro será Badfinger, depois Arnaldo e
Patrulha do Espaço e a gente vai tocar os amigos...
20)
Acho que é isso. Emita, por gentileza, suas últimas
palavras (nessa entrevista...). Meu irmão! Eu
gosto de vocês que estão lendo esta entrevista, dessa
oportunidade de expressar – a idéia é nada deixar em pé,
ignorar os canalhas e bater de frente, atropelar e fugir
from hell, aquelas coisas que eles estão falando nos
discos do ACDC... Não seja mais um FDP que acha que a
coisa tem que ser daquele jeitinho que fede. É isso:
vote no
cão! |