A Bolha - reflexão sobre o caso do artista nu

Mais de dois anos se passaram desde que um cineclube projetou filme com cenas picantes numa pequena praça do Conjunto Habitacional Lúcio Costa, no Guará/DF. Para um público exclusivamente adulto em ambiente fechado não seria nada demais.

O filme não continha sexo explícito. Mas as genitálias de faunos balançavam na penumbra, antes de sumirem diante dos abraços de ninfas em um lindo bosque. Artístico, sem dúvida. Mas causou constrangimento...

A plateia estava repleta de crianças e a chamada do evento dizia que seria exibido um filme infantil, não um filme com cenas sequer sensuais, quanto mais de insinuação sexual. As pessoas presentes, inclusive as próprias crianças, protestaram e os responsáveis pelo evento encerraram a projeção. E, assim, a solução não se transformou em um escândalo maior que o problema.

Agora, pense numa pessoa sem roupa, apenas recoberta por uma película gelatinosa que se descasca para simbolizar a troca de pele numa metamorfose, até o ponto que fica totalmente nua. É artístico, neste contexto. O ator fazia performance  ao vivo na Praça da República em julho de 2017 e a repercussão foi enorme, por se tratar de um espaço central de Brasília e muito movimentado. O evento foi encerrado truculentamente, sob alegação de atentado ao pudor.

Num tempo de violação dos direitos civis e autoritarismo, pairou muito mais coisa no ar que a suposta libidinagem.

A bem da verdade, os policiais foram acionados por populares que transitavam pelo local com crianças e exigiram a aplicação da lei, que reza contra "praticar ato obsceno em local público".

Foi condenável a forma truculenta como a polícia agiu, quebrando o cenário e ameaçando gestualmente dar porrada no artista nu. Ele estava dentro de uma bolha e não era ameaça física — sexual ou não — contra quem quer que fosse. Mas foi chamado em determinado momento de "tarado", com registro do áudio em um vídeo postado em redes sociais.

Segundo informações divulgadas pela imprensa, a entidade patrocinadora do evento também condenou a truculência policial, embora tenha reconhecido que o evento era autorizado para maiores de 16 anos e não havia, no local, estrutura e pessoal que impedisse o acesso da molecada abaixo dessa faixa etária.

O procedimento civilizado seria isolar a bolha de plástico onde estava o homem nu para verificar a documentação e a responsabilidade sobre a performance. Assim a própria Polícia Militar — que teve a imagem ainda mais desgastada — se resguardaria antes de outras providências previstas em lei. E não daria chance às bolhas de ranço autoritário, com vulgares defensores da PM, afirmando que o negócio é baixar a porrada mesmo em artista "imoral". Da mesma forma, não abriria espaço para retórica de autoridades do Governo do Distrito Federal, seja o Secretário de Cultura ou Governador Rodrigo Rollemberg (PSB), que saíram com "pedidos de desculpa" ao ator, tentando conservar a imagem junto à classe artística. Mas o Governador, que tinha autoridade para se posicionar contra truculência há muito mais tempo, se calou diante do Golpe Parlamentar, responsável por colocar no comando do País políticos que estimulam arbitrariedades.

O episódio do homem nu se inflou em bolhas de ego e de dissimulação.

(#TMZ, 19/07/2017)