História de cinema

Trecho do livro "Velhos demais para o rock´n´roll?" fala sobre o filme "João Brandão Adere ao Punk":

"Em março de 2014, convidado pelo diretor Ricardo Grilo, Ganso foi à casa do editor de imagens William Araújo, no Lago Norte, para conhecer a equipe que se dispôs a terminar um trabalho iniciado em 2012. Foi, então, apresentado à produtora Rita Andrade e ao seu esposo Cleon Omar, além do cinegrafista Pedro Henrique Aguiar. Muito trabalho rolou até que a estreia do curta João Brandão Adere ao Punk fosse programada para o dia 20 de setembro de 2015, no Cine Brasília, com exibição às 17 horas, dentro da Mostra Brasília do 48° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. A personagem principal do filme ganhou vida pelas mãos do poeta e contista mineiro Carlos Drummond de Andrade, que fez uma análise contundente sobre o movimento punk no Brasil. O texto de 1983 causa impacto à primeira vista pelo entendimento que autor demonstrou sobre o assunto, sem o preconceito que muitos intelectuais e jornalistas imputavam ao movimento.

Drummond morou anos no Rio de Janeiro e de lá alavancou sua carreira. Após a morte, o escritor ganhou estátua na Cidade Maravilhosa e todas as pompas de cidadão carioca, sem jamais esquecer sua herança mineira, dedicando especial atenção ao que ocorria na vida política e social do País. Com propriedade de quem conhecia o Rio e os modismos lançados a partir da metrópole — festiva para a burguesia e sede de uma mídia poderosa — , o escritor alfinetou os moderninhos com João Brandão Adere ao Punk, publicado ainda sob o regime militar. A publicação do conto, no então poderoso Jornal do Brasil, ficaria distante para novos punks — aqueles que surgiram depois da moda à qual Drummond se referiu — , se trechos do texto não tivessem sido reproduzidos em diversos fanzines ao longo de anos. Eis, então, que uma turma do DF resolveu trazer João Brandão à luz... Luz, câmera e ação! Uma ação, que talvez até possa parecer lenta para quem não acompanhou a luta de levar o projeto adiante, sem patrocínio, sem concessões, com recursos levantados dia a dia, contando com a colaboração de agentes da própria cena punk e apoio do Zine Oficial, no melhor estilo do lema faça você mesmo. Foram mais de três anos desde as primeiras filmagens até a finalização do curta.
No conto original, cujo diálogo é utilizado praticamente na íntegra durante o filme, Drummond apresenta João Brandão, um estudioso de fenômenos sociais, modismos e frivolidades, que passa a se dedicar à pesquisa do punk. As conclusões da personagem ilustram um pouco os motivos pelos quais Carlos Drummond de Andrade merece estar no topo da lista de autores mais lúcidos da literatura nacional. Na fala de João Brandão, Drummond inseriu respostas a uma entrevista fictícia.

No elenco, fazendo o papel de Carlos Drummond de Andrade, está o punk paulista Ariel, vocalista das bandas Restos de Nada e Invasores de Cérebros, dois pilares do punk nacional. Sob direção do então baterista da banda brasiliense Os Canibais, o grosso das filmagens terminou em um sábado, dia 09 de junho de 2012, com trabalhos técnicos da produtora UP Filmes. Nasceu assim uma joia bruta que jamais poderia ser lapidada, para não perder a própria essência. Brincando com isso, o baterista Grilo assinou a direção e o roteiro como Ramiro Grossero.

O poeta e ativista cultural J. Pingo — falecido aos 66 anos em dezembro de 2012, quase três anos antes da edição final do filme — fez o papel de João Brandão. Cenas de arquivos, fotos e algumas filmagens feitas em 2014 completaram lacunas deixadas pela partida de Pingo. Entre os figurantes de João Brandão Adere a Punk misturam-se um ou outro integrante das bandas The Insult, Mackacongs 2099, ARD, Marmitex S.A. e Canibais, todas do Distrito Federal, que estavam presentes nas filmagens, mas preferiram dar mais espaço para o público aparecer no filme. Juntamente com a banda brasiliense Galinha Preta e a paulista Invasores de Cérebros, as bandas citadas participaram de um grande show no Distrito Federal em 2012 — um dos últimos testemunhos do esforço de J. Pingo à frente do Mercado Cultural Piloto, espaço fundado pelo artista na Região Administrativa do Jardim Botânico.

Fofão, da banda brasiliense Besthöven, ficou responsável pela trilha sonora. A cereja do bolo, no entanto — mesmo com tanto talento reunido — , foi a participação do cartunista Broba, que fez contribuição aleatória ao que foi escrito por Drummond. Dono de traço forte, o cartunista ilustrou com visão própria a crítica punk aos status quo. Além de ter desenhos inseridos no curta pelas mãos do animador William Araújo — também conhecido como Chuchu —, Broba fez figuração como zelador do prédio de João Brandão, participando de todas as captações de imagem.

Desde que conversou com o diretor Ramiro Grossero na manhã que antecedeu a finalização das filmagens de 2012, o velho Ganso ficou com a certeza de que peculiaridades do filme João Brandão Adere ao Punk não estariam na edição final, o que de fato se confirmou. Tomadas que dificilmente serão vistas pelo grande público foram feitas no dia 07 de junho de 2012, uma quarta-feira, no centro comercial CONIC e no Bar Beirute, redutos tradicionais da boemia maldita em Brasília, com boca livre e bebida à vontade em um banquete oferecido pelo dono do Beirute, o senhor Chiquinho, empolgado com o filme. Na quinta feira a equipe técnica e o elenco seguiram para novos trabalhos em locais onde permaneceriam fazendo captações de imagens também na sexta e no sábado. Esses locais foram o Mercado Cultural Piloto e ruas de São Sebastião, cidade próxima. É fácil concluir que muita coisa rolou entre os deslocamentos do Jardim Botânico para São Sebastião, dois exemplos, cada qual com sua carga, de como nas cercanias de Brasília foram instalados núcleos habitacionais sem infraestrutura de saneamento ou serviços públicos, esquecidos anos a fio pelo governo distrital. Repousa aí uma coincidência: o Rio de Janeiro, também conhecido como A Cidade de São Sebastião, foi de onde Carlos Drummond de Andrade disparou para todo Brasil as percepções da personagem João Brandão sobre o movimento punk e seu grito contra desigualdades sociais. Com as filmagens do curta dirigido por Ramiro Grossero, a Cidade de São Sebastião — no Distrito Federal — e os condomínios com casas elegantes do Jardim Botânico — também no DF —, repaginaram a obra de Carlos Drummond de Andrade, que se recusou entrar para a Academia Brasileira de Letras, tal qual faria um autêntico escritor punk.

Por sua vez, a periferia de Brasília, com ilustres convidados de Goiás e São Paulo, invadiu a corte sem pedir licença, com punks escaldados nas batalhas do dia a dia e alguns figurantes menos engajados. Mas a inocência ainda não chegou a ser crime neste País, segundo concluiu João Brandão, que resolveu aderir ao punk para protestar com convicção.

Em uma das exibições de teste do filme João Brandão Adere ao Punk, realizada no Cine Brasília cerca de um mês antes da estreia para o grande público, estiveram Ganso e Maria Helena Flordelis. Desde que se conheceram há quase quatro anos, ambos com mais de 40 anos, passaram a ser vistos juntos com frequência na cena roqueira do DF e Entorno."

Veja o trailer oficial do filme "João Brandão adere ao Punk">>>

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